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Canto da araponga-da-amazônia é o mais alto emitido entre os animais

  • Publicado: Quarta, 13 de Novembro de 2019, 10h40
  • Última atualização em Quarta, 13 de Novembro de 2019, 12h04

araponga da amazonia Foto Anselmo dAffonseca

A pesquisa foi realizada por pesquisadores do Inpa e da Universidade de Massachusetts, em Amherst

 

Da Redação – Carly Britton (Cell Press) e Inpa*

Fotos e vídeo: Anselmo d’Affonseca

 

Uma pesquisa publicada recentemente pelos pesquisadores Mario Cohn-Haft do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTIC) e Jeffrey Podos da Universidade de Massachusetts, em Amherst (EUA) mostrou que a araponga-da-amazônia (Procnias albus) emite os sons mais altos entre os animais. A pequena ave de cerca de 30 centímetros do bico à cauda e que pesa cerca de 220 gramas, aproximadamente do tamanho de um pombo-doméstico, vive no topo de montanhas da região Amazônica brasileira. Veja aqui o vídeo.

O artigo Extremely loud mating songs at close range in white bellbirds saiu na revista científica Current Biology. Conforme o estudo, os sons mais altos são emitidos pelos machos durante o acasalamento, e podem atingir 125 decibéis (dB), mais alto que o de uma britadeira, e pode ser ouvido a mais de 1,5 Km na floresta. A façanha da araponga-da-amazônia entrou para o Livro dos Recordes como o canto mais alto entre os pássaros.

O novo marco ultrapassa os 116 decibéis registrados em gravações com o mesmo parâmetro para o cricrió (Lipaugus vociferans) - também conhecido como capitão-do-mato, seringueiro, entre outros - ave que antes ocupava o topo do ranking. Outro ponto interessante é que enquanto o cricrió emite um único canto, a pesquisa mostra que a araponga-da-amazônia emite dois tipos, um canto comum e outro relativamente raro. Este segundo é o mais alto, que o macho usa especialmente quando uma fêmea está por perto.

A pesquisa teve início com o estudo de Cohn-Haft sobre a fauna de serras e montanhas isoladas da Amazônia. Em suas expedições, o pesquisador observou que a ave tinha características anatômicas que a diferenciavam das demais, como os músculos e costelas abdominais grossos, algo incomum. O ornitólogo suspeitou que a diferença tivesse relação com o canto da ave, mas após buscas em literaturas científicas percebeu que não havia nada sobre a produção do canto desse pássaro.

Impressionado com os achados, Cohn-Haft procurou o amigo Jeff Podos, especialista em bioacústica e comunicação animal. Juntos, elaboraram um projeto de pesquisa para medir, com equipamentos de alta precisão, a verdadeira potência do canto da araponga.

 

This image shows a male white bellbird screaming its mating call 2 CREDIT Anselmo dAffonseca

 

Cohn-Haft e Podos foram juntos a campo, na Serra do Apiaú, e gravaram os cantos da araponga-da-amazônia. Além de descobrir que o canto da ave é mais alto que o de qualquer outra, verificaram que quanto mais alto é o som do canto mais curto é sua duração.  “Isso pode ser devido à limitação do sistema respiratório das aves e sugere que estão no limite da sua capacidade de produção de som, tudo para impressionar a fêmea”, conta Cohn-Haft.

O pesquisador Jeff Podos, que recebeu apoio para a pesquisa pela Fundação Fulbright, faz uma comparação entre o canto da araponga-da-amazônia e os outros animais. Segundo ele, a ave emite um som mais alto que o berro do macaco guariba, o que torna isso curioso, pois existe uma grande diferença de tamanho e peso entre essas aves e os mamíferos. 

Podos relata que enquanto assistiam os pássaros, observaram que as fêmeas se juntavam a eles. “Gostaríamos muito de saber por que as fêmeas voluntariamente ficam tão próximas dos machos quando cantam tão alto”, conta Podos, primeiro autor do artigo.

O pesquisador Mario Cohn-Haft pretende explorar ainda mais os comportamentos e as estruturas anatômicas que permitem que os pássaros produzam sons tão altos e os suportem sem danos auditivos.

“O nosso estudo levanta ainda mais perguntas do que respostas”, explicou o pesquisador do Inpa, com mais de 30 anos de experiência na região. “Pretendemos envolver alunos e mais colaboradores na pesquisa, que deve render bastante trabalho ainda”, completou o pesquisador que está numa “fase serra”, tentando conhecer melhor essas áreas mais remotas na Amazônia. Para ele, as serras Amazônicas são subestudadas e merecem muita atenção.

*Com colaboração da Comunicação do Inpa

 

 

This image shows a male white bellbird screaming its mating call 1 CREDIT Anselmo dAffonseca

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